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Blockchain chega ao mercado de seguros

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26/02/2018

A tecnologia blockchain está chegando também ao mercado segurador – ainda que sua aplicação na indústria deva ser bem menos dramática do que o fenômeno do bitcoin e outras criptomoedas.

Projetos em desenvolvimento por consórcios de seguradoras e resseguradoras, além de parceiros tecnológicos e consultorias, buscam a melhor forma de traduzir ao setor o potencial da tecnologia, que permite adotar maneiras seguras de compartir informações e tornar mais eficiente a interação entre participantes de um contrato.

“Blockchain possibilita que muitas fontes de dados sejam agregadas, compartidas e compatibilizadas, ao mesmo tempo em que se garante que a informação é segura”, afirmou Shawn Crawford, líder global da área de Seguros da consultoria EY.

A descrição soa menos emocionante do que a criação de valor monetário via “mineração de dados” em diversos computadores que caracteriza as criptomoedas. Mas, em realidade, as características da blockchain, ou tecnologias de registro contábil descentralizado, como alguns especialistas preferem chamar, tornam esta inovação especialmente útil para o setor segurador.

Isso porque elas criam a possibilidade de implementar contratos entre vários participantes que são, ao mesmo tempo, constantemente adaptáveis e seguros. Ou seja, que podem variar de acordo com a evolução do risco, ao mesmo tempo em que se reduz o risco de fraude.

Isso acontece porque, ao participar de um contrato baseado na tecnologia do blockchain, compradores, subscritores e corretores entram em uma “corrente” comum em que cada elo (ou bloco) necessita ser aprovado por todos os participantes antes de ser integrado ao contrato.

Cada vez que uma modificação no contrato é feita, por menor que seja, um novo bloco é adicionado (após aprovação dos participantes), o que implica a criação de um novo registro que pode ser rastreado e checado.

O mais importante, possivelmente, é que ninguém tem o controle do processo, já que todos os participantes têm o mesmo poder. Isso, na visão dos defensores da tecnologia, reduz o risco de fraudes ou de comportamento monopolístico que se encontra em sistemas centralizados de compartilhamento de informações, como os bancos centrais ou as bolsas de valores.

O potencial da tecnologia pode ser ilustrado por um exemplo citado por Ryan Rugg, a chefe da área de seguros da R3, um consórcio internacional de instituições financeiras que desenvolvem sistemas baseados em blockchain para o setor.

O exemplo envolve uma protegida protegida por uma apólice de danos materiais que, durante a vigência da cobertura, recebe a instalação de sprinklers e outros sistemas de contenção e prevenção de incêndios.

Em um contrato firma via blockchain, o proprietário do imóvel pode acrescentar a informação ao sistema, e, uma vez que todos os outros participantes aprovem, ela é acrescida ao contrato.Uma vez feito isso, o sistema pode adaptar automaticamente o valor do prêmio cobrado e outras condições vigentes no contrato.

“A apólice jamais será inserida no registro, a menos que todas as partes concordem com os novos termos”, explicou Rugg. “Todos os diferentes campos e subcampos são então codificados em um contrato inteligente.”

A R3 desenvolveu um sistema operacional, chamado CORDA com o objetivo de que seja usado pelas instituições participantes do projeto em seus próprios sistemas para imprentar a tecnologia blockchain.

Segundo Rugg, a ideia é que o CORDA funcione como o sistema operacional iOS, da Apple, provendo uma base tecnológica para que cada usuário desenvolva ou instale suas próprias apps baseadas em blockchain.

Ela acredita que, uma vez que a tecnologia esteja difundida, ela auxiliará os seguradores a reduzir custos operacionais de forma significativa, ajudando o setor a aumentar seus níveis de rentabilidade.

Uma das primeiras experiências que estão chegando ao mercado segurador envolve o setor de seguros marítimos, que, na opinião de Crawford, apresenta um potencial todo especial para a tecnologia.

“Empresas de navegação marítima têm a capacidade de coletar enormes quantidades de informação de seus navios”, observou Crawford. “O grande problema é que, hoje em dia, os dados disponíveis não são compartilhados com as seguradoras que assumem os riscos de operação dos navios".

Em sua opinião, a tecnologia blockchain pode ajudar a mudar esta situação. Por exemplo, o registro compartilhado pode ser automaticamente alimentado com dados como o percurso percorrido pelo navio segurado, adaptando o valor do prêmio aos riscos envolvidos.Se o capitão decide passar por uma região com risco de pirataria ou de guerra para chegar mais rápido ao seu destino, durante este período o armador teria que pagar um prêmio adicional ao subscritor.

O projeto-piloto do qual a EY participa visa testar extamente este tipo de possibilidade. A empresa se aliou à tecnológica Guardtime para desenvolver um sistema blockchain que interliga a Maersk, maior armadora do mundo, com seus corretores, subscritores e outros participantes das apólices.Segundo Crawford, o sistema fará com que a Maersk disponibilize uma grande quantidade de dados a seus corretores, que então compartilharão estas informações, de forma segura, com os seguradores. Willis Towers Watson, MS Amlin e XL Catlin também participam do projeto.

Entre as vantagens, além da possibilidade de precificar o risco de maneira mais satisfatória para todas as partes, disse Crawford, encontram-se melhoras na área de compliance de todos os envolvidos.

Isso porque os reguladores terão maior facilidade de conferir o cumprimento das normas de cada setor envolvido, já que os contratos serão totalmente rastreáveis.“Todas as transações com todos os participantes serão rastreáveis em qualquer momento, e cada pedaço de informação pode ser armazenada de forma segura”, afirmou Crawford.

Isso possibilita uma negociação mais rápida das coberturas, a precificação inteligente dos ativos segurados e a automatização do processo.”Além disso, no caso de um sinistro, todos os participantes podem ter acesso imediato a informações que podem ajudar na sua gestão, como vídeos e fotos feitos imediatamente pela companhia que opera os navios.

Michael Mainelli, CEO da Z/Yen, uma empresa que desenvolve sistemas de blockchain, considera que a tecnologia também oferece possibilidades interessantes para a criação de novas coberturas, por exemplo na área de seguros paramétricos.Ele mencionou o caso dos seguros cibernéticos, em que uma empresa um dia pode lançar uma cobertura que seja acionada automaticamente se um determinado número de computadores ligados a uma corrente blockchain deixe de funcionar por um determinado número de horas.

Por exemplo, na apólice poderia constar que o sinistro está coberto se 25% dos computadores cobertos pela seguradora em São Paulo ficarem fora de operação durante quatro horas, um evento que o registro detectaria automaticamente.

Por outro lado, Mainelli alertou que, quem estiver pensando em surfar a onda do bitcoin para usar blockchain em sistemas de pagamento vai dar com os burros n’água.“Em áreas como as criptomoedas, as pessoas estão começando a entender algo que já estamos dizendo faz anos, ou seja, que o custo dos pagamentos é alto demais”, afirmou.

Ele estima que pagamentos em bitcoin têm um custo de US$35 a US$40 por transação.

Fonte: risco seguro Brasil




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